Benfica

Benfica devia emigrar

Sei que houve um tempo em que a minha experiência futebolística era essencialmente limitada ao visionamento de jogos, mas não vos consigo dizer quando isso deixou de acontecer

Sei que houve um tempo em que a minha experiência futebolística era essencialmente limitada ao visionamento de jogos, mas não vos consigo dizer quando isso deixou de acontecer

 

Esta foi uma daquelas semanas em que dei por mim a olhar para o futebol português e senti que o Benfica devia emigrar, se possível levando-me com ele para onde fosse, fosse onde fosse. Não discuti esta reflexão com a minha família nem sei bem como se poderá operar o fenómeno migratório de um clube de futebol, mas sei que não seria assim tão estranho. Precisamos apenas de cingir aos factos para reconhecer que o Benfica é maior que Portugal. Na mesma linha, afirmo também que a instituição, mesmo presa geograficamente a um país de menor dimensão, deve fazer tudo para existir à margem de muitos dos fenómenos a que temos assistido no futebol português, que, como vimos esta semana, o tornam objetivamente uma coisa nem sempre recomendável.

 

Sabendo que a emigração do meu clube será complicada, não deixo de partilhar com o leitor o meu entusiasmo sempre que ouço falar num projeto de Superliga ou qualquer competição internacional que implique uma deslocação do Benfica a outro país, quem sabe melhor do que o nosso, para exibir a sua natural grandeza. O mais recente foi um Mundial de clubes para o qual não sei bem se existe sequer calendário ou pernas de jogadores que suportem tantos jogos, mas isso não deteve o meu entusiasmo. Não será esta semana que elaboro mais sobre as virtudes destes novos formatos competitivos, mas direi apenas que vão para além dos interesses económicos e desportivos do Benfica e não têm de ser entendidos como ataques à identidade dos clubes ou do país que historicamente receberam as competições de sempre.

 

Porquê a vontade de emigrar? Eu explico. A consulta de informação desportiva em Portugal não sobrevive dois dias sem o uso das palavras agressão, arremesso, injúria ou comunicado. Por entre acusadas esburacadas de corrupção ao Benfica, mais uns proverbiais episódios de agressões, outros de objetos atirados na direção de jornalistas, e, não menos importantes, episódios moderadamente chocantes na vida de um dos principais adversários do Benfica, como aqueles a que assistimos nos últimos meses, eu dou por mim a pensar que é cada vez mais difícil uma pessoa ver só futebol. Lembram-se? Eu confesso que já não. Sei que houve um tempo em que a minha experiência futebolística era essencialmente limitada ao visionamento de jogos de futebol, mas não vos consigo dizer quando é que isso deixou de acontecer. Só sei que era um mundo mais simples. Sabia o onze das equipas, a que horas começava o jogo e pouco mais. Hoje, sinto que só posso assistir devidamente a uma partida de futebol se souber onde vive o árbitro, que jogos da minha equipa apitou nos últimos cinco anos, quem é o AVAR, quem é o AVAR do AVAR, onde vive a sua família, se algum deles alguma vez pertenceu a uma claque, se foram mencionados em emails, se há algum jogador na equipa adversária que em pequenino torceu pelo mesmo clube que eu, e em que posição joga, que claques estarão representadas e quais os engenhos pirotécnicos que transportaram ilegalmente consigo, o que dizem as tarjas, quais os intervenientes da equipa técnica do adversário que poderão vir a aproximar a sua cabeça do árbitro no intervalo ou no final do jogo, quantas multas já pagaram, qual o valor. No final, rezo a Deus para que, no meio tanta variável e complexidade, o Benfica volte a ganhar.

 

Podia dizer-vos que é fácil isolar a minha experiência futebolística de tudo o que acontece com o qual não quero ter nada a ver, mas todos sabemos que é praticamente impossível. Requer uma disciplina que manifestamente não tenho. O castigo por ceder ao espetáculo do futebol tal como o conhecemos hoje acontece quanto tenho de o explicar. Nestas coisas, não há nada como as crianças para nos causarem algum embaraço com a nossa própria infância, a tal recuperada semanalmente, como dizia Javier Marias, a quem devo o título deste espaço de opinião. Esta semana, os miúdos perguntaram-me quem era um adepto do FC Porto detido há poucos dias. Decidi moralizar e tentei explicar-lhes que isso não tinha nada a ver com futebol, da mesma forma que um jogador atirar-se para o chão e simular uma falta também não é exatamente futebol, da mesma forma que muitos outros intervenientes ou estratagemas tentam aproveitar-se do futebol para o privar das suas qualidades originais e daí colher alguma espécie de benefício.

 

Falhei. Os miúdos argumentaram que não se falava de outra coisa na escola e perguntaram como é que era possível isto não ser futebol se o dito adepto aparecia em todos os jogos, era chefe da claque da Seleção e até era amigo do presidente do clube. Fui obrigado a usar a cartada de pai e manobrei a conversa até mudarmos para um tema mais adequado a crianças do que o futebol. E dei por mim a pensar que, não sendo possível emigrar, alguma coisa tem mesmo de ser feita para moderar esta violenta dieta de conteúdos que hoje caracteriza o meu desporto favorito. A reflexão devolve-me lentamente ao mundo do possível. É um facto que existe uma ideia de Benfica que já emigrou há muito, ou, se preferirem, foi exportada com sucesso, mas infelizmente não permite ao Benfica existir à margem deste futebol português que me causa alguma repulsa. À falta de melhor, sonho com um Benfica obcecado em viver numa bolha só sua, que só fala para dentro e nunca para fora, um Benfica que saiba encontrar um equilíbrio difícil entre fazer parte do quadro competitivo nacional e, simultaneamente, viver à margem do pior que o futebol português tem. Talvez não seja possível emigrarmos, mas vivo bem com um compromisso. Que a prática institucional do clube faça todos os outros quererem ser mais um pouco como nós, mesmo que não admitam.

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